Thursday, July 15, 2004

a luz da razão

Não sei se é a razão que nos ilumina ou se somos nós quem dá luz à razão. Isto para responder ao interlocutor que me interpelou quanto ao relativismo destes exercícios. Devo dizer que tenho viajado um pouco pelos blogs, tendo ficado impressionado pelo proselitismo que anima muitos dos seus autores. Há também atitudes desgarradas de crentes na descrença (nem só de racionalistas vive a rede!), há humor e espírito crítico. Parece-me que a essência do espírito bloguista está na discussão a propósito de ideias/factos/acontecimentos que remetam para uma experiência colectiva empiricamente determinada. Parece-me que a natureza anímica dos blogs é política, sendo o resto, as vertentes culturais inclusivé, acessórias ou complementares, quanto mais não seja pelos aspectos subjectivo-relativistas que tornam a discussão destes tópicos menos pública, menos susceptível de uma troca racional de argumentos que não descambe no total relativismo.
O bloguista discute. Troca, ou quer trocar, argumentos. O bloguista oscila entre o silogismo e o entimema na defesa dos seus valores e convicções. Um bloguista não racionalista não é um bom bloguista! Há um óbvio prazer por detrás das provocações que são lançadas na rede. Há um desejo de luta e de vitória no reptos que aqui surgem. Não me pareceu é que (como aliás até é norma na comum existência humana) as regras estejam bem definidas. Joga-se um futebol total sem que o campo tenha ainda as marcações feitas. Vale tudo! Vamos à festa!
Até agora tenho apreciado uma certa veia bandarilheira nos bloguistas nacionais. É um pouco um dá e foge, o cravar a farpa azeda e o dizer que se antecipou o movimento do adversário. Coisas à chico-esperto, como é apanágio deste nosso desmedido povo.
Talvez esteja de todo enganado. Estarei a tomar a árvore pela floresta,como me acontece muitas vezes, mas aí será, tão só, a relatividade da minha razão a enganar-me.
Paradoxalmente, talvez seja nos aspectos culturais, e não nos políticos, que os blogs acabem por ser mais conseguidos.As opções estéticas que nos são oferecidas são gratificantes: a poesia, a música, as artes plásticas surgem-nos em função das opções estéticas de quem as publica na rede, e é um prazer, sentados em nossa casa, partilharmos esses universos. Talvez que quando não haja a preocupação de impor a razão das nossas razões seja mais fácil a razoabilidade.
Vou continuar a explorar. Contra o relativismo! Pela razão universal|

Tuesday, July 13, 2004

A reconciliação

Um blog é necessariamente só conversa. O nosso mundo é só conversa, parafraseado muito portuguesmente o Wittgenstein. Hoje levantei-me ainda antes do Sol nascer e passeei-me, a pretexto de uma corrida, pela ponta-do-mato. Um ou outro pássaro, um ou outro peixe e a cidade ao longe. É bom olhar para uma cidade e pensar que ela ainda não acordou - é sempre mentira, eu sei - que os seus políticos dormem, que os seus banqueiros se esqueceram das nossas dívidas, que a cidade sonha connosco e espera por nós. Não ouvindo os carros parece que o mundo acabou, parece que só restamos nós e um ou outro pescador que insiste em procurar minhoca ou mexilhão. Cidade cinzenta, cidade coberta pela neblina,cidade que me apetece acordar com um grito.
Como a maré estava muito baixa pude avançar até bem dentro do rio.Nada mais lindo. Lá, até a areia parece branca e as águas límpidas. Talvez seja um engano dos meus sentidos mas apeteceu-me mergulhar e nadar até à cidade grande. Do outro lado talvez encontrasse os mouros ou os fugitivos do grande terramoto. Talvez que um grande onde me submergisse e me levasse.Mas sentia-me peixe, sentia-me ave, quis beber aquelas águas e acordar nos mares das Índias, nos mares onde o Tejo chega.

A reconciliação

Um blog é necessariamente só conversa. O nosso mundo é só conversa, parafraseado muito portuguesmente o Wittgenstein. Hoje levantei-me ainda antes do Sol nascer e passeei-me, a pretexto de uma corrida, pela ponta-do-mato. Um ou outro pássaro, um ou outro peixe e a cidade ao longe. É bom olhar para uma cidade e pensar que ela ainda não acordou - é sempre mentira, eu sei - que os seus políticos dormem, que os seus banqueiros se esqueceram das nossas dívidas, que a cidade sonha connosco e espera por nós. Não ouvindo os carros parece que o mundo acabou, parece que só restamos nós e um ou outro pescador que insiste em procurar minhoca ou mexilhão. Cidade cinzenta, cidade coberta pela neblina,cidade que me apetece acordar com um grito.
Como a maré estava muito baixa pude avançar até bem dentro do rio.Nada mais lindo. Lá, até a areia parece branca e as águas límpidas. Talvez seja um engano dos meus sentidos mas apeteceu-me mergulhar e nadar até à cidade grande. Do outro lado talvez encontrasse os mouros ou os fugitivos do grande terramoto. Talvez que um grande onde me submergisse e me levasse.Mas sentia-me peixe, sentia-me ave, quis beber aquelas águas e acordar nos mares das Índias, nos mares onde o Tejo chega.

Monday, July 12, 2004

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conversa